A rivalidade entre Brasil e Argentina acontece principalmente no futebol, e de repente se multiplica em outros ambientes. Mas, pelo menos da parte deles, não é uma questão pessoal. Fui muito bem recebido em Buenos Aires e Mendoza, o que me provou que a tal rivalidade é coisa da nossa cabeça, e que deveria ficar restrita ao futebol, ou no máximo ao esporte.
Quando a causa é a mesma, veja a solidariedade dos nossos hermanos. Tradução livre da crônica disponível aqui:
Crônica urgente sobre como os ciclistas de Buenos Aires estiveram junto aos portoalegrenses
“Isso do Facebook é como a chamada dos tambores ancestrais” disse a uma pedalante ambientada, na volta do encontro ciclístico em repúdio ao atropelo que sofreram os nossos amigos da Massa Crítica de Porto Alegre. Ela me olhou paciente, e arrematei a frase como se tivesse estudado comunicação social “veja, isso se formou a partir de uma mensagem, básica, minimalista, onde o que importa é avisar que o mal está aí e nós vamos nos defender”. E assim foi. Vi como avançava em horas uma convocatória; vi como em um ponto da rede alguém disse que em vez de clicar no ‘curtir’ teria que haver uma ação anônima e global. Em Buenos Aires apareceu uma mensagem básica e um panfleto ou flyer desenhado, mesmo que virtual. Estabeleceu-se um horário à tarde e o encontro simplesmente aconteceu.
Mais de duzentos ciclistas, a grande maioria participantes da Massa Crítica de Buenos Aires, se juntaram no clássico Obelisco para dirigirem-se à embaixada do Brasil, entregar uma petição pedindo justiça e dizer aos portoalegrenses que eles não estão sozinhos e tampouco nós. O encontro começou pequeno, não vou negar. As retinas carregavam as terríveis imagens do bancário atropelador como se fossem alforges de aço, e uma bruma de suspeita se multiplicou na multiplicação das bicicletas. O medo é uma dor individual; mas a vitória está no coletivo. E ali, entre os muitos, as pessoas em fixas, em praieiras, nas urbanas e dobráveis, seguiram pela Nove de Julho, dobraram na Córdoba e terminaram na estrutura cementária da embaixada brasileira. À medida que rodávamos, nos reconhecendo, recuperando o poder de existir, nós pedalantes voltamos à festa e imitamos com uma foto sobre o piso os participantes da Massa Crítica paulista, ato que, através do Facebook, talvez se converta em outro símbolo universal do nosso andar, triunfar e resistir.
Tanto ganhamos do medo que o grupo se dirigiu, alegre e compacto, ao canal Crónica, e com cânticos entusiasmados pediu a presença da bela jornalista Anabela Ascar. Ela, transparente e estelar, desceu com as câmeras de televisão e o grupo cumpriu seu destino Warholiano, não por ego, senão em homenagem aos atropelados de Porto Alegre, que por graça celeste ou destino, estão todos sãos e salvos. A noite terminou, o grupo se dissipou, e a todos que participamos nos bate, como em uma contagem regressiva, as horas que faltam para a Massa Crítica deste domingo 6 de março às 16h no Obelisco. Quem sabe ali, com outros muitos, felizes e muitos, nos esqueceremos do susto e mostremos aos vizinhos assombrados que nosso encontro é mais que uma utopia móvel. Que o nosso encontro se toca, se vive, se cheira, se roda.
Como disse Willian Cruz no twitter, o futebol separa, a bicicleta une.
